“70 Historinhas”, de Carlos Drummond de Andrade

Apresentação de 70 historinhas

Lançado em 1978, 70 historinhas reúne a prosa já publicada por Carlos Drummond de Andrade em outros livros. São crônicas e contos – ou “cronicontos” – em que a observação caminha junto com a fabulação, o humor roça cotovelos com o lirismo e a crítica aparece arejada pelo deboche.

Treze das histórias deste livro têm crianças e adolescentes como personagens, sem que o autor se preste a infantilizá-las, pela paródia da linguagem ou pelo primarismo das ações. Pelo contrário, elas enfrentam, contestam e vencem, muitas vezes, os detentores da autoridade, com a inteligência e a argúcia a que recorrem para desafiar-lhes o poder.

Mais um lance de gênio de um dos mais importantes autores brasileiros de todos os tempos..

A editora disponibiliza um trecho de 70 historinhas como degustação em pdf, mas você também pode lê-lo logo abaixo.

 

Índice / Sumário do livro 70 historinhas

O jardim em frente
Nascer
Pescadores
Assalto
Caso de secretária
A cabra e Francisco
Coração segundo
O telhado
Drink
Caso de arroz
A cápsula
Dois no Corcovado
Premonitório
Depois do jantar
Caso de escolha
A datilógrafa
Suspeita
Voluntário
Três homens na estrada
Caso de canário
A festa acabou
Na delegacia
Duas mulheres
À procura de um rosto
Caso de justiceiro
No caminho de Canela de Boi
Prazer em conhecê-lo
Serás Ministro
Peru
Caso de boa ação
Recalcitrante
Quadro na parede
Ladrões no terraço
De fraque
Caso de menino
Luzia
No ônibus
O dono
Noiva de Pojuca
Caso de recenseamento
O importuno
Banco barroco
Maneira de olhar
Essência, existência
Caso de chá
Glória
A menininha e o gerente
O crime de Fátima
Iniciativa
Caso de conversa
Juiz de paz
Esparadrapo
Acertado
O segredo do cofre
Caso de almoço
O outro Emílio Moura
Conversa de casados
Aconteceu alguma coisa
O sono
Caso de ceguinho
Guignard na parede
O pintinho
Boneca triste
No restaurante
O outro marido
A visita inesperada
O ladrão
Na escola
A viúva do viúvo
Jacaré de papo azul

Nota da edição

Posfácio

“Mais que historinhas”, por Edmílson Caminha.

Leituras recomendadas

Cronologia

 

Trecho da obra 70 historinhas

O jardim em frente

Os big-shots da empresa estavam reunidos em conferência. Assunto importante, desses que exigem atenção, objetividade. O
presidente recomendara:

— Não estamos para ninguém. Essa porta fica trancada. Avisem a telefonista que não atenda a nenhum chamado. Nem do papa.

Começou-se por dividir o assunto em partes, como quem divide um leitão. Cada parte era examinada pelo direito e pelo avesso, avaliada, esquadrinhada, radiografada. Cartesianamente.

— Você aí, quer fazer o favor de parar com essa caricatura?

O presidente não admitia alienação. Por sua vez, foi advertido pelo vice:

— E você, meu caro, podia deixar de bater com esse lápis, toc, toc, toc, na mesa?

Estavam tensos, à véspera de uma decisão que envolvia grandes interesses. Alguém bateu à porta.

— Não respeitam! Não respeitam o trabalho da gente! Isso não é país!

Seja ou não seja país, quando batem à porta a solução é abrir, para evitar novas batidas, ou, mesmo, que a porta venha abaixo. Pois ninguém deixa de bater, se sabe que tem gente do outro lado.

O diretor-secretário abriu, de óculos fuzilantes. O chefe da portaria, cheio de dedos, balbuciou:

— Essa senhora… essa senhora aí. Veio pedir uma coisa.

O primeiro impulso do diretor-secretário foi demitir imediatamente o chefe da portaria, servidor antigo, conceituadíssimo, mas viu ao mesmo tempo diante de si a imagem consternada do homem e a lei trabalhista: duas razões de clemência. Pensou ainda em mandar a senhora àquele lugar de Roberto Carlos ou a outro pior. Dominou-se: ela ostentava no rosto aquela marca de tristeza que amolece até diretoria.

— A senhora me desculpe, mas estou tão ocupado.

— Eu sei, eu é que peço desculpas. Estou perturbando, mas não tinha outro jeito. Moro do outro lado da rua, no edifício em frente. Meu canário…

— Fugiu e entrou aqui no escritório? Eu mando pegar. Fique tranquila.

— Antes tivesse fugido. Morreu.

— E daí?

— Viveu quinze anos conosco. Era uma graça… Pousava no dedo…

— E daí, minha senhora?

— O senhor vai estranhar meu pedido… Eu estava sem coragem de vir aqui. Por favor, não ria de mim.

— Não estou rindo. Pode falar.

— Os senhores têm um jardim tão lindo na cobertura. Da minha janela, fico apreciando. Então agora está uma coisa. Posso fazer um pedido?

— Pode.

— Eu queria enterrar o meu canário no seu jardim. Lá é que é lugar bom para ele descansar. O senhor vê, nós temos aquele terrenão ao lado do edifício, com três palmeiras, um pé de fruta-pão, mas é grande demais para um passarinho, falta intimidade. Se o senhor consente, eu mesma abro a covinha. Não dou o menor trabalho, não sujo nada.

O diretor-secretário esqueceu que tinha pressa, que havia um problema sério a discutir. Que problema? Naquele momento, o importante, o real era um canarinho morto, e amado.

— Pois não, minha senhora, disponha do jardim. Eu mesmo vou levar a senhora lá em cima, para escolher o lugar.
Subiram, escolheram o canteiro mais apropriado, onde bate sol pela manhã, e à tarde as plantas balançam levemente, à brisa do mar.

— Não é abuso eu fazer mais um pedido? Queria que o jardineiro não revolvesse a terra neste ponto, durante três meses. O tempo de os ossinhos dele se desfazerem… Volto daqui a meia hora, para o enterro.

Meia hora depois, voltava com uma caixinha forrada de veludo azul-claro, e a reunião dos big-shots, que ainda durava, foi suspensa para que todos, com o presidente muito compenetrado, assistissem ao sepultamento.

06/10/1967

Vida e obra de Drummond através de entrevistas

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Programa produzido pela TV Cultura.

 

Você pode se interessar também pelos seguintes livros de Drummond:

Caminhos de João Brandão”, de Carlos Drummond de Andrade

Sentimento do mundo“, de Carlos Drummond de Andrade

Os dias lindos“, de Carlos Drummond de Andrade

Fala, Amendoeira“, de Carlos Drummond de Andrade

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